Introdução à língua grega

A língua grega é flexível, muito rica e bastante precisa.
O grego pertence à grande família das línguas indo-europeias e ainda é a língua oficial da Grécia moderna. Sua longa evolução — cerca de quatro milênios — começou por volta de -2000 a.C., data aproximada da presença dos mais antigos falantes da língua grega na península balcânica.
O conhecimento que temos de qualquer língua baseia-se nos falantes vivos e no estudo dos textos escritos por eles e por seus antecessores. Embora ainda se fale o grego, há importantes diferenças entre a língua de hoje e a de 4000 anos atrás. Deste modo, para estudar as fases mais antigas da língua grega temos de recorrer à arqueologia e aos escritos que chegaram aos nossos dias.
Os primeiros textos gregos datam do fim do século XV a.C e são apenas registros contábeis dos palácios micênicos, esparsos e truncados. Foram escritos no silabário conhecido por Linear B e a partir deles foi possível reconstituir a estrutura antiga da língua.
Da etapa seguinte temos a Ilíada e a Odisseia que, embora escritos no final do século VI a.C., foram compostos no fim da Idade das Trevas, por volta de 750 a.C. A análise linguística evidencia que a língua utilizada é artificial e puramente convencional, nunca falada em nenhuma região da Grécia; mas a estrutura morfológica e sintática, nitidamente arcaica, pertence sem dúvida a uma fase bastante antiga da língua grega, posterior ao mundo micênico.
As mais antigas inscrições alfabéticas foram encontradas em vasos atenienses e datam do fim do século VIII a.C.. A língua grega já estava, então, dividida em vários dialetos e o ático, em decorrência da preeminência cultural de Atenas entre 500 e 300 a.C, se tornou pouco a pouco o mais usado dentre eles.
Finalmente, durante o Período Helenístico, do ático derivou a koiné, língua grega comum a todos os reinos helenísticos. A partir da koiné formou-se o grego moderno.

LÍNGUA GREGA MODERNA

Uma breve história do Grego moderno

Com as conquistas de Alexandre Magno no Oriente Médio, no século IV a. C., a língua grega foi difundida entre os vários povos dominados e passou a ser usada numa região muito vasta e por muitos que não a tinham como língua materna. O Grego, assim, tornou-se uma espécie de língua franca em todo o Mediterrâneo Oriental e Ásia Menor durante o período Helenístico. Sendo conhecida por muitos, era o principal meio de contato comercial entre aqueles diversos povos, que, justamente por terem o Grego como segunda língua, impuseram-lhe mudanças no léxico, na pronúncia e na sintaxe em relação à sua forma clássica. Surgiu aí a koine (= comum), a forma do Grego que foi, mais tarde, a língua usada para a difusão do Evangelho no Oriente.
Apesar, porém, das significativas mudanças sofridas pela língua nesse período – muitos linguistas atualmente defendem a tese de que foi justamente essa a época de maiores modificações na história do Grego – toda a espécie de literatura continuava sendo feita em Grego Clássico, basicamente em Ático. Isso prevaleceu, também, durante o Império Bizantino, no qual a língua falada foi lentamente se desenvolvendo, enquanto a língua culta, protegida pela casta letrada e pela Igreja Ortodoxa, permanecia sob uma forma que parecia cada vez mais arcaica e longínqua.

Pode-se dizer, portanto, que a partir do período Helenístico todo o Mundo Grego passou a viver uma diglossia – a língua realmente falada era o demótico (que no final do primeiro milênio de nossa era já em muito se assemelhava ao demótico contemporâneo), enquanto a língua escrita era aquela forma conservadora e aticista. Deve ser ressaltado aqui, porém, que, por mais conservadora que fosse a língua culta, também ela, inevitavelmente, sofria mudanças com o passar do tempo.
Com a tomada de Constantinopla pelos Otomanos, em 1453 – o que significou a perda de liberdade dos gregos -, a grande maioria dos literatos fugiu do domínio turco em direção à Europa Ocidental. O território grego, assim, atravessou séculos sob uma opressão sem tamanho: os turcos, muçulmanos, viam com maus olhos o Cristianismo e assim reprimiam as suas manifestações da maneira mais brutal possível. Isso não impediu, porém, que as tradições gregas fossem propagadas através das gerações mesmo no solo helênico dominado, graças principalmente ao Patriarcado, que organizava escolas secretas para que fossem ensinadas a língua e a história da Grécia a algumas das crianças gregas. Fora do território ocupado, nos principais centros urbanos da Europa, os intelectuais continuavam a utilizar a língua arcaizante. Não se deve esquecer, porém, que já desde o final do primeiro milênio da era cristã muito do que podemos chamar de “literatura artística” vinha sendo escrito em demótico, ou em formas do Grego que se aproximavam dele.
No século XVIII, com as diversas teorias iluministas de liberdade e igualdade entre os homens, a produção intelectual foi intensa em língua grega: além da formação de grupos literários, muitas das obras de importantes filósofos iluministas ingleses e franceses foram traduzidas para o Grego. Começa a ser questionada a identidade nacional helênica, e os primeiros significativos movimentos de libertação da Grécia têm início. Inevitavelmente, surge uma pergunta: qual a verdadeira língua grega? A língua falada e compreendida pelos gregos, fruto de uma evolução do Grego Antigo, ou a língua purista e conservadora cultivada pelos intelectuais? É nesse período que tem início uma disputa entre os demoticistas, ou adeptos do uso do demótico, e os puristas, aqueles que não aceitavam as modificações que o tempo impusera à forma clássica do Grego. Obviamente, aquilo que de melhor foi produzido na literatura neo-helênica foi escrito em demótico.
A maior parte do movimento revolucionário grego foi envolto pela aura de
sentimentalismo e idealização característica do Romantismo do século XIX, e a luta de libertação dos helenos do bárbaro império turco foi um tema muito explorado na época.
Um bom exemplo é o de Lorde Byron, um dos principais expoentes do Romantismo europeu, que viajou para a Grécia no período e escreveu diversos poemas retratando a situação dos gregos; lá ele morreu, e muito influenciou o Romantismo grego. Como característica de todos os estados em formação, houve, também na Grécia, uma busca pela identidade cultural, e, em meio a essa atmosfera de paixão, essa identidade foi encontrada no glorioso passado dos antigos gregos. O demoticista Dionysios Solomós (1798-1857), o principal poeta romântico da Grécia, ao qual foi concedido o epíteto de Poeta Nacional, escreveu, já após a independência da sua pátria, um enorme poema épico intitulado Hino à Liberdade (Ymnos stin Elefthería), cujas primeiras estrofes compõem o atual hino nacional da Grécia:

 

1 Se gnorízo apó tin kópsi
tou spathioú tin tromerí,
Se gnorízo apó tin ópsi,
pou me vía metráei ti gi.

2 Ap’ ta kókkala vgalméni
ton Ellínon ta ierá,
kai san próta andreioméni,
Chaíre, o chaíre, Eleftheriá!

Traduzindo:

1 Eu te reconheço do corte
terrível da tua espada,
eu te reconheço da forma
que com força contempla a terra.

2 Dos sagrados ossos
dos helenos arrancada
e, como primeiramente enfurecida,
salve, oh salve, Liberdade!

 

Com a Independência do país em 1821, aquela questão lingüística que já fora esboçada toma proporções muito maiores – o Estado Grego recém formado necessita agora de uma língua nacional. Tem-se, inicialmente, duas propostas: há aqueles que dizem que a língua oficial do novo Estado deve ser o demótico, a língua do povo, mas outros, tomados por aquele sentimento romântico de exaltação da Grécia Antiga, diziam que a língua oficial deveria ser justamente aquela dos gloriosos antepassados. A partir dessas duas posições antagônicas surge a katharévousa , que seria uma espécie de “purificação” da língua grega; a idéia seria a de inserir ao demótico formas clássicas (tanto se alterando a sua morfologia com base na do Grego antigo como lhe acrescentando um vocabulário clássico), tornando-o assim mais “belo” e “comunicativo”. Isso mostra muito claramente, entre outras coisas, o sentimento de repugna aos anos de domínio otomano: tentava-se apagar, também, os traços turcos que se fizeram presentes na língua por meio de empréstimos lexicais.
Durante todo o século XIX a katharévousa foi a língua oficial da Grécia, porém ela, enquanto “língua padrão”, nunca foi uma língua uniforme, isto é, ela variava muito de acordo com o escritor e com o contexto a que era aplicada, mais do que usualmente uma língua varia, em graus de maior ou menor conservadorismo – o que se media no maior ou menor número de formas demóticas presentes num determinado texto. Por todo o século XX a katharévousa foi a forma escrita do Grego aceita para a literatura técnica, acadêmica e informativa, assim como para avisos públicos e coisas do gênero, e o demótico só era ensinado na escola primária; este era, também, a língua da qual os autores de literatura moderna se utilizavam.
Durante as décadas de sessenta e setenta, quando a Grécia viveu um período de ditadura militar, foi instituída como língua oficial para todos os propósitos, inclusive no ensino básico, a forma mais radical possível de katharévousa, o que acabou estigmatizando a população. Após a queda do regime militar, na década de setenta, por estar intrinsecamente relacionada a ele, a katharévousa teve seu uso definitivamente abolido, sendo o demótico, finalmente, adotado como língua oficial do Estado. Desde então o demótico é a língua utilizada para todos os fins pelos gregos, e o uso da katharévousa está cada vez mais enterrado no passado. Deve-se considerar, porém, que esse passado ainda é muito recente, e por isso muitos ainda têm um domínio, passivo que seja, dessa forma de Grego – em alguns campos de estudo ainda há uma enorme bibliografia presente em katharévousa, por exemplo.
O fato de que há tão pouco tempo a Grécia ainda vivia uma diglossia é claramente visível no idioma contemporâneo: muitas palavras possuem duas ou mais formas alternativas, geralmente uma aplicável a um contexto mais formal e a outra a um mais coloquial, e há uma infinidade de chavões e expressões cristalizadas de origem purista.

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